Bon Iver começou a existir como banda em 2007 lançando seu primeiro EP independente no mesmo ano. Em Fevereiro de 2008 o álbum For Emma, Forever Ago foi lançado oficialmente por uma gravadora (Jagjaguwar) no Reino Unido e na Europa. Depois disso, aos poucos Bon Iver foi conquistando os olhares e atenções do público e indústria da música, expandindo em número de apresentações, projetos e produções.
Não encontrei uma “data oficial” de sua entrada significativa no Brasil mas, tenho quase certeza de que não foi antes de 2011. E lembro muito claramente – como se fosse ontem – eu levando meu laptop para o pequeno banheiro de louça rosa envelhecida para escutar repetidamente For Emma, Forever Ago enquanto tomava banho ou chorava. Isso, em 2008, na França.
Com isso, vanglorio-me (um pouquinho, vai) de três coisas (sabendo que a terceira é relativa): sensibilidade, percepção e bom gosto. E a coisa desse vangloriar-se é porque me enche de uma certa esperança esquisita: a de que usarei essas qualidades na minha futura profissão que ainda não descobri bem qual é. Para “provar” (e quem sabe, fazer alguém partilhar dessa minha esperança) e ver se há nela algum fundamento, trago um fato mais recente.
Julho de 2013, Buenos Aires. Eu estava solta, feliz que nem criança, olhos arregalados diante de tudo o que o MALBA (Museo de Arte Latinoamericano de Buenos Aires) tem para deslumbrar o ser humano amante das artes. Mesmo sendo um museu de pequeno porte, possui um acervo absolutamente invejável. A exposição permanente é a do acervo e traz obras como o Abaporu de Tarsila (do Amaral) e um dos autorretratos de Frida (Kahlo). A exposição itinerante, perfeitamente intitulada Obsesión Infinita, da artista (e escritora) japonesa Yayoi Kusama que trabalha com uma infinidade de plataformas como a pintura, escultura, colagens, instalações e performances. Eu já a conhecia de nome, de imagens de algumas obras, de tipos de produção (como as citadas), mas não de história e intenções profundas. Assim, percorri a exposição com olhar crítico, devorando as imagens, tentando extrair delas conceitos, propósitos, ideias, processos objetivos.
Logo na entrada da exposição, cada visitante ganhava uma cartela com adesivos de círculos coloridos. A ideia era que eles fossem usados para interagir com a última obra: uma instalação que consistia numa sala de paredes, mobiliário, detalhes e acessórios – tudo completamente branco. A cor ficaria à mercê do gosto e querer dos visitantes que podiam usar seus círculos de diversos tamanhos e cores para modificar a alvura inicial. Participar disso e observar a participação das pessoas foi delicioso; quase como estar de novo no jardim de infância, aos cinco anos, quando com giz e pó de lápis de cor nas mãos somos incentivados a acreditar que existe arte em nós, e que podemos ser artistas – fazer algo colorido, distorcido, belo, feio – o que quisermos.
Ao mesmo tempo, não deixava de pensar como aqueles círculos coloridos eram simbólicos e podiam ser o “drink me”, “eat me”, “a toca do coelho da Alice”: cada visitante foi – mesmo sem perceber – convidado a entrar no universo de sua loucura particular. Se você for indiferente à obra de Kusama, ficar olhando o relógio a cada cinco minutos e com a cabeça em qualquer outro lugar, vais perder a imersão na magia; nada daquilo fará sentido algum.
Fiquei super feliz e orgulhosa ao constatar que o que aprendi depois, lendo sobre ela, foi exatamente ou muitíssimo parecido com aquilo que presumi simplesmente com esta visita ao MALBA – que ela foi precursora de movimentos como o da pop art, minimalismo e arte feminista. Não somente precursora mas, defensora das ideias e dos conceitos desses “tipos” de arte, assim como da arte conceitual e do expressionismo abstrato. É curioso perceber a notória assinatura de Kusama em sua arte: tem muito dela ali; em suas cores, formas e disformes, universos criados e ousadas metáforas. Sua obra é infundida com conteúdo autobiográfico, psicológico e sexual – características repetidas em aspecto quase patológico. Claro que essa é uma afirmação sutil – não incisiva como diagnóstico ou letra de lei – mas, de percepção pessoal de quem observa a relação especial entre a arte e a loucura. Creio que em muitos casos, neste inclusive, arte é sintoma e terapia ao mesmo tempo. Depois de uma carreira de muito sucesso por todo o mundo, em 1977, Yayoi Kusama voluntariamente admitiu-se num hospital (onde vive até hoje) para lidar com seus problemas psiquiátricos. Lá ela continua a produzir obras de arte, poesia e literatura (incluindo uma autobiografia).
Para mim, ela entra no hall de pessoas que inspiram por enfrentar com peculiar elegância o peso da loucura, a opressão do meio e, a dificuldade de comunicar e extrair beleza de dentro e de fora.
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Ficou longo, eu sei. Mas, espero que tenham gostado (;
Des bisous ;*








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